sexta-feira, 4 de abril de 2014

Amor, liberdade e outras coisas

Texto magnifico.
Trocaria a palavra casar por qualquer coisa como "entregar-se", simplesmente "amar", ou outro sinónimo que traduza o conceito de dedicar o coração e a fidelidade a alguém.
Não necessariamente o casar, que não é o tema do dia.

Ser livre, ser mais livre ainda, pertencendo a alguém, será possível?!?

Não me parece que haja uma resposta única, ou um chavão mais certo do que outro.
A liberdade e a necessidade de cada um varia em função do que cada um é, do que viveu e experienciou, do que quer viver e experiênciar.
Depende muito também do outro, da sua forma de possuir e de amar, e, por último, da saúde da relação, da saúde do amor e da saúde da forma de amar.

Não tenho duvidas, no entanto, que podemos cair no oposto, no sermos escravos da nossa liberdade, da nossa obsessão por a ter e do medo de a perder.

Ser livre, libertar-se, pertencendo a alguém, por Miguel Esteves Cardoso, um caso de sucesso do "amor libertador":

"Casar por amor

Quando eu pensava que não podia ser mais feliz, manhã após manhã era mais, mas só um bocadinho mais do que o máximo humanamente possível; pensava eu ser absolutamente impossível que eu fosse, de repente, muito mais feliz, do que a própria felicidade até.

Mas, de repente, fui.
Muito mais.

Casei com o meu amor e o meu amor tornou-se a minha mulher, minha em tudo, para tudo, para sempre.
E eu, finalmente, consegui divorciar-me de mim e deixar de ser tão triste e aborrecidamente meu, trocando-me, no melhor negócio do século, por ela.
Ela ficou minha.
Eu fiquei dela.
É ou não é estranho e lindo e bem pensado por Deus Nosso Senhor que ambos pensemos que nos livrámos de boa e ficámos a ganhar? É.

É sim.
A minha mulher é mais minha do que eu alguma vez fui meu — e eu antes não podia ter sido mais para mim, felizmente.
Por ter tudo agora para lhe dar. Que alívio.
Nunca mais me quero ver na vida.
A não ser aos olhos dela, onde sou muito bem visto — talvez o maior homem que já viveu, logo a seguir ao pai dela, claro.
É um milagre como melhorei tanto.
E paradoxalmente sem deixar de ser eu por causa disso.
Ou mesmo que deixasse, com tal amor não tinha saudades nenhumas.

Sou em termos estritamente matemáticos, amorosos e integrais, tanto mais dela como o todo absoluto que ela é e me deu.
Afinal o casamento é a maior ajuda que se pode receber.
Passa-se a pertencer. E, em troca, passa-se a possuir.
A pertencer e a possuir mesmo.
Fica-se, por troca, sossegadamente apropriado e violentamente proprietário.

Não me venham com modernismos de meia-tijela, liberalices sem fundamento humano, tretas de quem não ama, de quem não aspira ser de outro, amado, que nos ama.
Casar é trocar.
Casar é trocar a liberdade podre, que é a de cada um, pela posse rica, que é a de quem se quer.
E casando se passa a ter, absolutamente, por vontade de quem se dá e de quem recebe.

Casando por amor prescinde-se do nosso pior inimigo (nós próprios), entregando-o a quem sabe e gosta de aproveitá-lo, abusá-lo, tirar o maior prazer dele.
E recebe-se quem mais queremos, para dela fazermos o que queremos, que é tudo."

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